Nota
Cortaram a Selic de novo. Quem decide sua parcela não foi na reunião
O corte sai no jornal da noite. No dia seguinte alguém manda o print no grupo da família, e vem o “agora vai” com três pontos de exclamação. Aí chega o boleto do financiamento de outubro, com o mesmo valor do de setembro. Ele não ficou sabendo. E não vai ficar.
A meta Selic caiu para 13,75% ao ano em 17 de setembro (Banco Central). Só que a caderneta de poupança, de onde sai o dinheiro do SBPE, tem preço escrito em lei. Enquanto a Selic estiver acima de 8,5% ao ano, a caderneta paga 0,5% ao mês mais a TR, a Taxa Referencial. Repare no que a reunião do Copom mexeu ali: nada. Os 0,5% estão na Lei 8.177/1991, e o Copom não mexe neles. Lei não lê manchete.
E quem já assinou, muda alguma coisa?
Quem já assinou com juro prefixado não vê o corte: a taxa travou na assinatura, e não é o Copom que destrava. Ela pode subir, isso sim: basta largar os produtos que deram o desconto de relacionamento. O que se mexe todo mês é a TR, que corrige o saldo devedor. Olha o tamanho do movimento. Na véspera da Selic nova a TR estava em 0,1687%. No dia seguinte, com a Selic já menor, 0,1687%. O mesmo número. Abra um ano: em setembro de 2025 ela era 0,1740%, e de lá pra cá foram cinco cortes. A TR não piscou.
Queda de juros vira manchete de alívio pro mercado imobiliário, e o recado que sobra é sempre o mesmo: espera mais um pouco. Eu acho esse conselho caro. Quem espera paga aluguel enquanto espera, e aluguel não tem Copom. A leitura que circula trata a Selic como a torneira do crédito imobiliário. Bancos captam de outras fontes, e essas acompanham a Selic, sim. Mas a perna que dá nome ao SBPE está presa a um número escrito em lei. Acima de 8,5%, a taxa só desce se o banco resolver repassar.
O que eu faria: se a papelada está encaminhada, eu não esperaria a Selic derrubar a taxa sozinha, porque por esse cano ela não desce. Levaria a mesma simulação em três bancos e compararia o CET, o custo efetivo total, que é a taxa com seguro e tarifa por dentro. É ali que a diferença aparece, e ela é decisão de gerente, não de Copom. As taxas de cada banco estão no nosso comparativo de juros.
Pra caderneta trocar de preço, a Selic precisa cair 5,25 pontos. Não 0,25. O Copom olha pro 13,75. Quem financia casa devia olhar pro 8,5.
É isso. Com o pé no chão.
Isto é leitura de mercado pra sua decisão, não recomendação de investimento.
Fontes
- Banco Central: meta Selic (série 432), 13,75% a.a. desde 17/09/2026, decisão do Copom de 16/09
- Lei 8.177/1991, art. 12, II (redação da Lei 12.703/2012): remuneração da poupança
- Banco Central: Taxa Referencial (TR), série 226, valores diários de set/2025 e set/2026
- CAIXA: taxa de juros com relacionamento, reduzida para quem mantém outros produtos do banco
- ABECIP: Caixa reajusta a prestação quando o mutuário deixa de usar o produto que deu o desconto
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